Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

O Candidato

Ernestinho nasceu para a política. Coisa de família. Seu bisavô foi vice-governador. Seu avô, o deputado mais votado do estado. E até seu pai, que morreu cedo, foi prefeito por dois mandatos. Não havia escolha. Era só uma questão de tempo.

E seu tempo chegara. Ia completar 30 anos. No partido, seu nome foi escolhido por unanimidade. Eram favas contadas. Até o adversário sabia que tinha não a menor chance. A família de Ernestinho era adorada na região. E desde a eleição passada, o povo já cobrava sua candidatura.

Somente uma coisa era mais comentada na cidade do que a eleição: o glorioso Alferense Futebol Clube. Há anos o time só dava vexame. Não conseguia ganhar de ninguém. Até que um fazendeiro da região resolveu bancar o clube. Contratou jogadores, comprou camisas e até reformou o velho estádio municipal. O time começou vacilante, mas embalou. E depois de alguns jogos, era o líder do campeonato.

E justamente essa era a maior preocupação de Ernestinho. Por uma daquelas inexplicáveis travessuras do destino, ele torcia para o S. E. Guaraci, o maior rival do A.F.C.. Esse deslize de caráter era segredo de estado. Somente sua família e dois ou três amigos sabiam. Se a informação vazasse, a eleição estava perdida.

Tudo corria às mil maravilhas. Tanto para Ernestinho, quanto para o Alferense. O candidato liderava as pesquisas, com mais de o dobro dos votos do segundo colocado. E o time não fazia por menos, estava invicto há 12 partidas. O povo andava feliz como nunca. Para completar, a final do campeonato foi marcada para um dia antes da eleição.

Não é preciso dizer que Ernestinho entrou em pânico. O adversário era justamente o seu amado Guaraci. Ele tentou como pôde não ir ao jogo. Mas não teve jeito. Seu lugar na tribuna de honra já estava reservado. No dia, pensou em fugir, mas acabou convencido que bastava ficar quieto, o Alferense ia golear e tudo acabaria bem.

Mas faltou combinar com o goleiro adversário. Ele defendia tudo. Chutes, voleios, cabeçadas e até um pênalti, inventado pelo juiz. Parecia brincadeira, por mais que o time atacasse, o guarda-metas do Guaraci não deixava passar nada. E o 0 x0 se arrastou pelos 90 minutos. E depois pela prorrogação. A disputa de pênaltis também ficou empatada até a última cobrança. Estava tudo nos pés do melhor jogador do Alferense. Ele ajeitou a bola com carinho, tomou distância e bateu.

Uma tristeza profunda tomou conta do estádio. O silêncio que veio a seguir deveria ser absoluto. Não fossem os gritos que vinham da tribuna. Ernestinho havia resistido bravamente, mas o derradeiro pênalti havia sido demais. Com os olhos cheios de lágrimas, ele urrava, pulava, comemorava feito uma criança.

Quando percebeu a gafe, Ernestinho começou um discurso inflamado, com juras de amor à cidade. Um simples jogo de futebol jamais poderia atrapalhar a caravana do progresso. O povo deveria julgar com a razão e não com a emoção. Foi interrompido por uma pedrada. Acabou saindo escoltado do estádio. Para evitar uma tragédia, foi embora da cidade de madrugada. Da eleição, só soube pela imprensa. As imagens do seu adversário carregado pelo povo e vestido com a camisa do Alferense passaram no país inteiro.

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Nomenclaturas

Se conheceram numa sexta-feira. Uma amiga arranjou tudo. Sem ela saber, claro. Quando viu já estava sozinha com ele. No dia seguinte, a amiga ligou cedo para saber das novidades. “Ah, ele é bonzinho”, foi tudo que ela disse.

Mais pela insistência dele do que pela vontade dela, sairam outras vezes. Um cineminha aqui, um jantarzinho acolá. Ele sempre cortês; ela distante e reservada. Quando perguntavam, respondia sem empolgação: “ele é muito gente boa”.

Quando o aniversário dela chegou, foi comemorar com ele. Uma noite romântica, com direito a luz de velas, caixa de bombons e outros mimos. Na hora que as amigas ligaram, ela derretia: “Ele é um fofo, não é?”.

Logo depois, começaram a namorar. Se viam quase todos os dias. Pareciam feitos um para o outro. Ela emagreceu, cortou os cabelos, voltou para a ginástica. Pensava nele o dia inteiro. Colocou até uma foto em sua mesa. Se alguém passava por perto, sempre comentava: “Ele é um gato, pode falar!”.

Como em qualquer relação, eles também tinham seus problemas. A tampa do vaso eternamente levantada, o ronco à noite, o futebol no domingo... No encontro semanal das mulheres ela já não escondia: “Ah menina, ele é muito displicente”.

Foi numa terça-feira chuvosa. O namoro não andava lá essas coisas, mas ela não esperava por isso. Ele foi direto ao ponto. Sem rodeios ou justificativas. Era o fim. Ela chorou como poucas vezes na vida. Muito mais por orgulho do que por amor. Ficou semanas sem sair de casa. E ainda hoje, quando perguntam dele, ela fecha cara e vocifera: “Quem? Aquele canalha, desprezível e infame?”



Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Vá entender

Ela sempre sonhou em casar. Aos seis anos, qualquer toalha de mesa virava vestido. Aos nove, obrigava os coleguinhas a subirem no altar. Cada dia era um. Para poder escolher. Sempre imaginava seu príncipe. Ele até variava no tipo, podia ser louro, moreno, grande ou pequeno. Mas sempre de cavalo branco. A salvava do perigo. E, invariavelmente, terminavam na igreja.

Quando começou a namorar, assustava os meninos. Logo no primeiro encontro já queria decidir o nome dos filhos. Para perder a virgindade foi uma novela mexicana. Ela queria casar pura, mas percebeu que isso podia demorar demais. Escolheu a dedo. Só poderia ser com aquele. Esperou os pais viajarem, comprou velas, vinhos, incensos. Claro que não foi bom. Mas espalhou que foi perfeito.

Na faculdade, começou a namorar sério. Fez até enxoval. Sem ele saber, óbvio. Tudo corria às mil maravilhas. Até o namorado descobrir que ela tinha reservado a igreja. Quase terminaram. Mas só foi acabar mesmo quando ela começou a parcelar o vestido de noiva. Já estava a ponto de desaminar. Aí “Ele” apareceu.

Era gringo. Loiro, alto. Perfeito. O príncipe encantado. Se apaixonaram imediatamente. Com medo de perdê-lo, evitou falar em casamento. Nem acreditou quando ele tocou no assunto. Como teria de voltar para casa, casar era a única forma de continuarem juntos. Combinaram tudo. A cerimônia seria em dois meses.

Foram os dias mais felizes da vida dela. Queria que tudo fosse exatamente como sonhava. Reservou a igreja, mandou fazer vestido, comprou alianças. Convenceu o pai a bancar a festa. Para não fazer feio, entrou em um regime radical. Só comia, alface, brócolis e ovos cozidos. Isso fora a mudança. Largou o emprego, vendeu o carro. Agora só faltava o sim.

Há uma semana do casamento, começou a se sentir estranha. A empolgação tinha acabado. Não conseguia dormir. Não queria comer. Estava triste. Como nunca na vida. Achou que fosse coisa passageira. Mas piorou. Não parava de pensar que tudo ia mudar para sempre. Ia virar esposa. Acordar junto todo dia. Ter filhos.

Na véspera do grande dia, entrou em pânico. Num ato que misturou ousadia e desespero, terminou tudo. O namorado até riu. Achou que fosse brincadeira. Não era. Depois de uma vida dedicada às bodas, concluiu que não queria. De nada adiantaram as súplicas dele. Nem a vergonha da mãe ou o prejuízo do pai - que já tinha pago tudo adiantado. Ela estava decidida.

E assim foi. Por meses a fio, o assunto casamento ficou proibido. Se alguém perguntasse sobre o acontecido ela virava a cara. Mas aos poucos a poeira foi baixando. Quando deu por si, já estava novamente fazendo planos. Imaginando seu príncipe. Mas agora ela sabia. O que realmente gostava. Era de sonhar.




Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Itapetinga FC


Leitão; Pará, Ribão, Toco e Zé Belmiro; Tilápia, Benevides, Alaor e Pé Preto; Gibão e Gasolina. Era essa a escalação do Itapetinga FC. Orgulho da cidade. Que qualquer morador sabia de cor e salteado.

Em outros tempos, o campeonato seria barbada. Mas desde que a Usina fechara, muita coisa havia mudado. Era a globalização diziam uns. Era a crise, afirmavam outros. Mas o fato é que ela estava fechada. E quase metade da cidade ficara desempregada. Uns tantos até já tinham ido embora. O próprio time perdera jogadores. O Zezé de Zé de Lara, o Augusto Sérgio e até o Tião Jegue, que era capitão. mas foi buscar serviço em outras bandas.

O time só sobrevivera por causa do Seu Riba. Ribamar Reginaldo de alenquer e albuquerque. Neto bastardo do saudoso Coronel Albuquerque. Mas da velha pompa, só restava o nome. Ele morava de favor na casa de uma prima e vivia de uma mirrada aposentadoria. Sua única ocupação era o Itapetinga. Lá ele era presidente, treinador e, se necessário, até massagista.

Aquele ano começara difícil. Dinheiro não havia. Mas, com a ajuda do povo, Seu Riba ia levando o time. Cada jogo fora era uma penúria. No último, o Juca do taxi colocou 8 jogadores na sua Brasília. Mas agora eles estavam na final e o jogo era em Sapucaia do Norte, há quase 200 kms de lá. E, para piorar, o time estava sem uniforme. As velhas camisas não resistiram ao derradeiro certame.

Seu Riba já tinha pedido ajuda a todos os fazendeiros da região, ouvia sempre a mesma resposta: “o negócio tá brabo, sem a Usina, nem sei se consigo arcar com meus compromissos”. Tentou a venda, a farmácia, a loja de ferragens. Nada. Sua última esperança era o prefeito. Ia ter uma audiência aquela noite. Para impressionar, colocou até o terno. A conversa foi rápida. E negativa. A prefeitura também estava quebrada.

Ele saiu com os olhos marejados. Era o fim. Resolveu tomar um porre. Mas não um qualquer, iria beber até cair. E nada de botequim. Seu Riba ia era para a Zona.

(No auge da cidade eram duas, as casas de vida fácil. Mas a vida não estava fácil nem para as primas. Só restava a Pecado's e assim mesmo com a D. Gertrudes como quase a única opção.)

Ele já chegou pedindo cachaça. Não uma dose, mas a garrafa inteira. Na hora do vamos ver, nada se viu. Seu Riba só conseguia chorar. D. Gertrudes, que era puta mas não era burra, foi logo perguntando se tudo aquilo era por causa do time.

Depois de escutar todas as lamúrias, ela começou a falar. Num tom quase maternal, disse que começou nova nessa vida e que economizou cada centavo que havia, literalmente, ganho com o seu suor. Falou também que estava de mudança, ia para longe, começar uma vida decente. Mas que antes de partir queria realizar um desejo. Um único e definitivo desejo. Queria pagar por sexo. Isso mesmo, a velha meretriz queria, pelo menos uma vez na vida, ser cliente e não puta.

Então, para surpresa do Seu Riba, ela fez a proposta. Bancaria as despesas do Itapetinga e até o uniforme novo. Em troca, depois da final, queria o time todo. De uma vez. Uma orgia. Ela e os onze - do goleiro ao ponta esquerda.

A notícia causou furor. Alguns ficaram chocados. Outros, indignados. Mas era isso ou o fim do Itapetinga. Depois de muita discussão, eles concordaram que, para o bem do time, fariam o sacrifício. Que nem tão sacrificante assim era, uma vez que todos, sem exceção, já haviam “estado” com D. Gertrudes. Ribão, Tilápia e Gasolina haviam, inclusive, iniciado suas vidas masculinas nos carinhos da velha rameira.

E não é que o dinheiro da meretriz deu sorte? De ônibus de luxo e camisas novas, o Itapetinga não deu a menor chance ao adversário. No fim do primeiro tempo já estava 3x0, com dois gols do Gibão e um, de cabeça, do Pé Preto. No segundo tempo, Benevides e Gasolina deram contornos finais à peleja: 5x0. Para entrar para a história.

Mas o que entrou para a história mesmo foi a comemoração. Não houve sequer uma parada, foram direto para a casa de D. Gertrudes. E só saíram no dia seguinte. O que aconteceu, ninguém nunca soube ao certo. Da puta não mais se ouviu falar. Nem do seu Riba. Uns dizem que ela morreu de tanto exagero. Outros contam que ela deu conta dos onze e ainda levou o Seu Riba para a prorrogação. E que os dois moram longe, numa casinha simples, com um grande troféu na sala.





Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Cabozório

Como todo dia, arribou num pulo. Passou café amargo; fardou-se com seus panos. Às 6h15 estava na estrada. Duas léguas a passos largos. No alto dos seus 75 anos, ainda cumpria obrigações. Como ninguém nada falasse, ia-se levando o cotidiano dos dias. Trabalho seu era de vigília. Solitário. No centro da praça, alto de elevações, se mirava quase de tudo. Casas simples, na baixada do Almerão; a Matriz, imponentes torres, sinos d’além mar; a rua do comércio, com a turba formiga passando de todo lado. Para a destra, baixando uns quarteiros, ficava a gente de posses - casas vastas, avarandadas. As vistas, resistiam ao tempo. Era capaz de reconhecer outrem, mesmo na lonjura - só pelo trejeito de pisar.

Ocupação que tinha era mesmo aquela, firmado. Paradão. Arte de observo. Ordem já perdera no tempo. Mas era bom cumpridor. Fazedor de questão. Nas origens, tinha fardamento completo - coturno, capacete, fuzil. Na falta da reposição, virava no improviso. Pros pés, botina gomeira - calçada com polaina pra manter pose; a calça, brim pardo, encurtara nos anos, pra cima do joelho. O jaleco, camisa simplória, com insígnias recortadas e, por si próprio, recosturadas. No ombro, fuzil mais não tinha, só um pau talhado, nas formas de arma. Pra completar a figura, maior estranheza, mantinha o capacete, que a ferrugem já comia grandes partes.

Fosse por bizarria do traje, costumes de seriedade ou pela paradeza da função, tinha fama de amalucado. O cuca-mole. Naquela lonjura de cidadela, nele, ninguém não levava fé. Os mais novos formavam troça. Jogavam coisas. Depois corriam grandes carreiras. E ele lá, estacado. Seguro das faculdades. A comprovar, tinha o soldo. Dinheiro pouco, mas preciso - dia 5, era o certo, pago pelo exercício da vigília. Da antiga, que guardava lembranças, só seu Jujuca da venda. E o velho Cara-de-carranca, que nem mais saia de casa. Lembram dele vistoso. Imponente, de fazer medo.

Mas aquele dia portava novidades. De padre novo - que batina só usava nos trabalhos de missa e arrancava suspiros das moças. Rapagão forte. Padre Henriques. Ele ficara muito encucado com a história do Cabozório. O coitado, já de idade avançada, todo dia lá, parado. E recebia salário. Tava algo errado. Queria tirar a limpo. Por ele mesmo, tinha feito pesquisa. Corrido a polícia, os quartéis. Fuçou até que descobriu. Teve ajuda de um colega de seminário, hoje capelão das armas. Levantou a história. Agora ia lá. Caminho da praça, contar verdades. Boa ação formulada.

O acontecido tinha pra mais de 40 anos. Época de 64, revolução. Linha dura. Ele servia num quartel da região. Houve ameaça de resistências. O governador era contrário a causa. Acabou caindo. Por garantias, destacaram tropas para todas as cidades. O contingente era variado, dependia do tamanho e da importância municipal. Para aquele fim-de-mundo, bastava um. O escolhido: Cabo Ozório Junqueira dos Reis. Era para ser passageiro. Assunto de meses. Todavia, era tempo confuso. O exército tinha tarefas demasiadas. E aquele municipim, nos cafundós do Judas, acabou esquecido. Passados uns anos, o quartel mudou. Aí danou-se de vez. A papelada acabou num porão. Arquivo de velharias. Coisas sem valor. O soldo passava despercebido. Ninharia. Mais um entre milhares. Ele até fazia contato. Escrevia cartas, relatórios. Acabavam em lugar algum. E como ele não podia abandonar o posto, a coisa foi indo.

Cabozório escutou, ensimesmado. Não disse palavra alguma. Padre Henriques falava explicações. O salário virava aposentadoria. Aumentar até iria. Não carecia mais de ir na praça. Cumprira a sina. Podia descansar. Desobrigado estava. Ele ajoelhou, fez o beija-mão. Jurou agradecimentos. Com a pompa costumeira, virou as costas e marchou.

Ninguém mais nunca ouviu falar de Cabozório. À cidade, jamais tornou. Uns dizem que morreu. Tristeza profunda. De não ter hábito de coisas outras. Tropeiros juram que o viram numa lapa. Lá para as bandas da Serrinha das Araras. Era casa sua. Ermitão. Mas certeza nenhuma havia. Seu Jujuca um dia propôs: levantar estátua de Cabozório. Devia de ficar lá. No ponto exacto. Mirando a cidade.





Obs 1 - Baseado em uma história real

Obs 2 - Sim, voltei a ler Guimarães Rosa.

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Corruptela

Sexta. 1o de março.11 da manhã. Quase na hora de abrir o restaurante, o telefone toca.

- Alô!
- Zé??
– Sim, quem tá falano?
– É o Palhares, Zé. Tá esquecendo dos amigos???
– Faaala Palhares! Quanto tempo! Tudo bem concê?
– É... tudo indo, tudo indo.
– Cara sumido, sô. Depois que ficou importante, nem lembra da turma.
– Que absurdo! Almocei aí mês passado.
– Mas é diferente. Cê tava acompanhado. Nem deu pra conversar.
– Foi para isso que eu liguei.
– Prá isso, o que?
– Para conversar. Estou precisando muito falar com alguém de fora. Posso passar aí hoje? Eu vou sozinho...
– Uai, claro. Mas de fora de onde?
– Não posso falar aqui, Zé. Estou indo para aí.
– Já entendi. Pode vim. Pode contar comigo pro que der e vier.
– Tchau, Zé. Até daqui a pouco.
– Tchau, Palha.

12h35. Restaurante Le Plat D'or, José Francisco fuma um cigarro enquanto lê o jornal. Caderno de política. Quer se inteirar das novidades. O garçon avisa que o Dr. Palhares chegou.

– Palhares! Vem cá meu amigo, me dá um abraço.
– Tudo bem, Zé?
– Tudo, e concê? Me conta! O que está acontecendo? Sentaí.
– Obrigado.
– O que houve? Se meteu em alguma treta?
– Não! Muito pelo contrário! Esse é que é o problema. Não corremos o risco de alguém nos ouvir aqui, não é?
– Claro que não. Essa é a sala de fumantes. Tá sempre vazia. Essas leis que proibem fumar são uma merda. Mas comigo não tem disso. Mantenho a sala. Não quero nem saber. Eu fumo, porra! Qual o problema? O que que o Governo tem a ver com isso? Antigamente todo mundo fumava. Hoje em dia, tá brabo. Procê ter uma idéia, lá em casa, a patrôa me proibiu de fumar no quarto. Depois não podia fumar na sala, depois no banheiro. Agora, só posso fumar na varanda. E olhe lá. Qualquer dia vou ter de sair de casa para fumar um cigarro. Puta quiu pariu, porra! Mas aqui não. Aqui eu fumo, não quero nem saber. Pra isso mantenho essa sala, pra garantir o direito ao sol dos fumantes! Mas fala Vieira. Eu tô aqui prá te escutar. O que houve?
– O negócio é o seguinte, Zé: você não pode falar para ninguém. Promete?
– Que isso Palhares. Tá desconfiando de mim? Que isso, cara!
– Promete?
– Prometo, porra! Claro! Cê sempre foi cheio de frescura, né Palhares? Puta quiu pariu!
– Não é frescura. O assunto é sério.
– Tá, tudo bem, foi mal. Pode falar. Não ia contar pra ninguém mesmo. Sou um túmulo.
– O negócio é o seguinte: você sabe que eu sou Secretário de Planejamento do Estado, não é? Toda a verba do Estado passa na minha mão.
– É mesmo? Não sabia. Não vejo TV, nunca sei quem é quem na política. Então você é importante pra caralho! Quem diria... Torço muito por você, cara. É bom ver um amigo da gente assim, importante. Depois quero até ver umas coisas aí, de impostos. É muito dinheiro que eu pago. Deve ter um jeito aí. Mas depois a gente conversa. Continua...
– Pois é, fui nomeado e garanti ao Governador cumprir com ética e decência o exercício do meu cargo.
– hum... E aí? Ele acreditou? Hahahahahaha!
– E aí, que eu descobri corrupção no governo dele.
– Uai, mas não é sempre assim?
– Que isso, Zé! Está louco? Tem muita gente séria trabalhando para o Governo. Eu inclusive.
– Sei...
– Então, outro dia, por acaso fui conferir umas notas de um projeto. E descobri um superfaturamento. O Governo está pagando quase mil por cento a mais que o mercado. Um roubo.
– E é muito dinheiro?
– A diferença chega quase a 2 milhões. E isso não é nada. Pedi para ver outras liberações de verba, licitações, compras. A coisa é generalizada.
– Cê acha que tem gente lá de dentro ganhando muito com isso?
– Calma. Tem mais ainda, eu vou chegar lá. Fui tentar descobrir quem estava liberando a falcatrua.
– E aí?
– Tinha gente do terceiro e do segundo escalões. Chamei meu sub-secretário, que também está no rolo. Conversa vai, conversa vem, eu comecei a apertar ele. Você não acredita, até os meus colegas Secretários de Estado estão envolvidos.
– É uma corja, uma gangue, uma máfia.
– É... você não imagina como eu fiquei. Minha primeira reação foi tentar falar com o Governador. Não consegui. Pensei em chamar a polícia, mas fiquei com medo. Já estava decidido a procurar Ministério Público, quando minha secretária avisou que eu tinha hora marcada com um tal de Dr. Paulo, de não sei aonde. Achei engraçado. Não me lembrava dessa reunião. Mas mandei o tal “Doutor” entrar.
– Ele te ameaçou de morte!? Puta quiu pariu Palhares! Ocê é maluco!? Tá cutucando cobra com a vara curta, cara! Esse pessoal é ganguister, eles matam mesmo.
– Eu tive esse medo no começo, mas foi muito pior. Ele me ofereceu dinheiro. Ele tentou me comprar!
– Menos mal. Antes rico desonesto que pobre morto.
– Menos mal? Você está louco Zé? Você me conhece há muitos anos. Sabe como eu sou. Não seria capaz. Eu tenho nojo de gente assim.
– O que você fez então?
– Nada. Pedi tempo para pensar.
– Quanto ele te ofereceu?
– Cinco milhões. E disse que eu ganharia muito mais, se ajudasse.
– Caralho Palhares! Cê tá rico! Hahahahaha. Onde nós vamos comemorar?
– Zé, eu não aceitei.
– Mas também não disse que não.
– Não. Quer dizer, sim. Eu não falei nada, falei só que ia pensar.
– E o que ocê pensou?
– Não pensei ainda, né Zé. Vim aqui justamente para ouvir sua opinião. Você é meu amigo há tantos anos. Uma das poucas pessoas em quem eu confio. Além do mais, a Elisângela não anda bem de saúde. Os remédios são caros e nosso orçamento é curto...
– O que que a Elisângela tem, Palhares? É grave?
– Essas coisas de mulher. Hormônios, úteros, tireóides. Essas coisas...
– Sei... E ocê agora quer minha opinião, certo? Olha Palhares, vou ser bem franco concê. Te conheço há muitos anos. Não vou ter babas na língua.
– Foi por isso que te procurei.
– Quando a gente era mais novo, eu te achava até meio bobo. Sabe como é, né? Cê não bebia, não fumava cigarro, não fumava maconha, quase não saía de casa. Eu é segurava sua barra com o resto da turma. Todo mundo falava mal docê. Que era maricas, fresco, criado com vó, essas coisas. E eu lá, te defendendo. Falando: “não gente, ele é meio bobo, mas é legal”. Já quase briguei pra te defender uma vez. O Arnaldo, cê lembra dele, né? Pois bem, ele começou a falar que ocê era isso, que era aquilo, que ia te bater. Acho que ocê negou cola de uma prova prá ele.
– Pô Zé! Isso foi no primeiro ano científico. Fazem mais de 30 anos.
– Tá bom, esquece. Mas nesse dia eu te defendi muito. Falei que era mentira, que se ele falasse de novo ia ver uma coisa.
– Você queria impressionar minha irmã, Zé. E além disso, o Arnaldo me bateu naquele dia.
– Porque eu não estava lá! Se estivesse cê ia ver.
– Zé, você estava lá.
– Mas tava longe! Mas se tivesse mais perto...
– Tudo bem, tudo bem, eu acredito. Mas você ainda não falou nada sobre o meu caso.
– Ah sim. Claro. Então, como eu tava falando, eu te achava meio bobo antigamente. Mas depois foi melhorando. Você tinha mania de fazer tudo certinho. Nunca te vi nem avançar sinal vermelho! Quando soube que tinha entrado prá política pensei: “esse aí vai longe, qualquer dia vira presidente”. Mas agora, não sei não...
- Não sei não o que, Zé?
– Porra Palhares, deixa de frescura. Cê tá com a chance de ficar milionário e ainda pensa duas vezes!? Rateia!? Tá maluco!? Quem dera fosse eu... Puta quiu pariu, 5 milhões. E você ainda fica pensando, cara? Cê já viu que todo mundo mama, não viu? Te garanto que o Governador é quem mais rouba. Se não tivessem te oferecido, aí tudo bem, cê tinha mais é que denunciar os filhos da puta, mesmo. Mas agora, cê pode matar dois carneiros com uma caixa d’água só. Você não denuncia, não corre o risco de morrer á toa, e, ao mesmo tempo, fica milionário e ainda paga os remédios da Elisângela. Perfeito. Acabou a discussão.
– As coisas não são simples assim. E se descubrirem? Eu posso ir para a cadeia, Zé! Já pensou, eu na cadeia? Aparecendo no Jornal Nacional?
– Agora entendi tudo. Cê tá louco prá aceitar a bufunfa, mas tá sem coragem... Cê é um bundão mesmo. Vê se pode. Quantos políticos que você conhece estão presos? Heim? Me fala? Cê tem imunidade parlamentar, cara!
– Zé, eu não sou Deputado. Sou Secretário de Planejamento do Estado. Só deputados têm imunidade parlamentar.
– É verdade. Mas ainda assim, não lembro de nenhum político preso por corrupção no Brasil.
– Eu sei. Mas sei lá, sabe... Vai que abrem uma exceção logo na minha vez...
– Deixa de ser bundão, caralho! Cê pode tirar o cavalinho da chuva, por as manguinhas de fora. Farinha pouca, meu pirão primeiro, sacou?
– É... farinha pouca, pouca meu pirão primeiro. Isso faz sentido.
– Além do mais, o que esse governo já fez procê? Porra nenhuma. Cê só paga imposto, paga taxa, paga multa e não ganha nada com isso. Abre o olho, Palhares!
– Mas você paga imposto e não tem nada em troca, justamente por causa da corrupção. Eu vou contribuir para piorar o país! E agora?
– Mas cê é burro ou o que? Se você não roubar, outro vem e rouba. Ou cê acha que mais alguém no governo é bundão feito você? Heim? Mané. Otário. Tá comendo mosca, cara. Outra chance feito essa nunca mais. A sorte não bate duas vezes na mesma árvore. Cê tem de pegar agora e garantir seu futuro. E os seus filhos, cara? Que futuro você quer prá eles? Se pegar a grana, pode mandar todo mundo estudar em Miami, na Suiça, na casa so caralho.
– Eu não tenho filhos, Zé.
– Melhor ainda, porra. Pode gastar tudo em viagens, festas, mulheres... Heim, já imaginou comer aquelas modelos famosas... Eu é que tô fudido, tenho 3 filhos e prá sustentar eles, trabalho dia e noite nesse restaurante. É até pecado recusar. Tanta gente passando fome no mundo e você recusando dinheiro. Deus não dá asa a a onça, mesmo... Aiaiai, se fosse comigo...
– Tô começando a te dar razão, Zé...
– Ouça oque eu te digo: farinha pouca, meu pirão primeiro.
– Obrigado, Zé. Você me ajudou demais.
– Não tem de quê. Mas depois cê olha o negócio dos impostos prá mim. A situação tá braba mesmo. Tenho 3 filhos pra criar. É só umas dívidas de nada. Perto do seus cinco milhões, é até piada.
– Pode deixar, mande os documentos prá minha secretária que eu vou dar um jeito.
– Valeu demais Palhares, meu amigão! Me mantenha informado. Melhoras prá Elisângela! Tchau.
– Obrigado.Tchau.

Quarta-feira, 12 de abril.18h30. Avenida Amazonas; trânsito intenso. Enquanto procura uma rádio, José Francisco pensa na filha da vizinha: “Ela está com 20 aninhos, que delícia. Queria ter 15 anos a menos; ou então 5 milhões a mais, hahahahaha.” Seu pensamento é interrompido pelo toque do celular.

– Pronto!
– Zé? É o Palhares, tudo Bem?
– Fala Palhaaaares! Porra, pensei nocê agorinha mesmo. Foi transmimento de pensação! Hahahahaha.
– Que?
- Transmimento de pensação, transmissão de pensamento... Sacou? Hahahaha
– Bom te ver assim de bom humor! Então, estava precisando conversar de novo com você.
- O que, outro suborno? Hahahaha Por falar nisso, obrigado pelo lance das dívidas, lá. Valeu mesmo. E como terminou aquele negócio? Cê pegou a parada? Os..
– Não! Quer dizer, não posso falar por telefone. Onde ocê está? Podemos nos encontrar agora?
– Porra Palhares, tô no meio de um trânsito escroto. Vô demorar pelo menos uma meia hora prá chegar em algum lugar. Mas cê sabe, né? Pros amigos tudo, pros inimigos a lei. Hahahahaha Cê pensou em algum lugar?
– Tem de ser um lugar muito discreto.
– Já sei, porra! Lem casa. A patroa foi pro sítio com os meninos. Sabe onde é?
– Acho que me lembro, sim.
– Rua Oriente, 512, apartamento 303. Te espero lá em meia hora. Se der, compre umas cervejas, não sei quantas têm lá.
– Pode deixar. Até daqui a pouco.
– Inté.

19h10. O interfone toca. José Francisco manda subir sem perguntar quem é e já abre a porta da frente. Orlando Palhares entra poucos minutos depois, com uma caixa de cerveja em baixo do braço.

– Pode por as cervas no congelador. Tem umas geladas na porta da geladeira. Fica à vontade, que a casa é sua, Palhares.
– Obrigado, Zé.
– Então, qual o motivo para uma visita tão ilustre?
– Vim te agradecer. Se não fosse por você...
– Agradecer pelos conselhos? Que isso Palhares, agente é igual irmão. Uma irmão lava a outra. Hahahahahaha. Eu te ajudei com o conselho e ocê me ajudou com os impostos. Inclusive, muito obrigado.
– É, mas se não fosse por você, eu não teria feito o negócio. Seria um bundão até hoje.
– Então rolou a propina... E aí, tudo certo?
– Perfeito. Depois descobri que não tem como dar errado. Tem policial civil, delegado federal, juiz, deputado, senador, prefeito, tudo comprado. Cê tinha razão, eu era o único bundão do Governo.
– Não te falei? Mas não deu bandeira, né? Se a imprensa fica sabendo, aí fudeu.
– Não, de jeito nenhum. Coisa de profissional. Mas vamos logo ao que interessa. Eu vim te dar um presente.
– Não precisa Palhares. Fiz tudo por amizade.
– Você não está entendendo. É assim que funciona. Você sabe demais, então precisa entrar no negócio também. É mais do que uma questão de justiça, é uma obrigação.
– Cê num tem jeito, né Palhares? Sempre certinho, cumprindo regras. Nem na hora de roubar cê num perde essa frescura. Puta quiu pariu! Hahahahaha
– O dinheiro está nesse pacote aqui, quinhentos mil reais. Dez por cento da bolada. E a partir de agora vai ser assim. De tudo que eu conseguir, dez por cento é seu.
– Porra Palhares, cê é meu amigo prá caralho. Cê é um anjo. Nem sei o que eu posso te dar em troca.
– Eu sei. Preciso que você assine uns papéis para mim.
– Que isso Palhares! Que papéis? Tô fora. Não, que isso.
– Eu já te falei como o negócio funciona. Você já está dentro. Está achando pouco? Te dou vinte por cento de tudo então.
– Vinte por cento? Quer dizer, um milhão hoje?
– Amanhã, Zé. Preciso pegar o resto ainda. Mas você tem de assinar aqueles papéis.
– O que são esses papéis?
– São para abrir uma empresa e uma conta no seu nome. E uma procuração me dando plenos poderes para controlar ambas.
– Mas não é sujeira, não?
– Claro que não! Você mesmo não falou que nunca viu político preso? Se te pegarem, você diz que foi enganado, que não sabia de nada, essas coisas. Dinheiro para pagar advogados não vai faltar. Não tem como dar errado. E eu não já falei que está todo mundo envolvido. Para pegar um, tem de pegar todos. Nenhum pássaro na mão e todos voando. Hahahaha.
– Porra, não tô gostano dessa história. Vô virar laranja, caralho! Sempre me perguntei quem eram os idiotas abriam contas pra nêgo roubar. Agora tô eu aqui, assinando uns papéis. Puta quiu pariu.
– Eu também achava errado roubar. E você me convenceu a mudar. Farinha pouca, meu pirão primeiro, lembra? Vai fugir da raia? E o milhão que você vai ganhar agora? E dinheiro que ainda pode entrar? É a sua independência financeira, meu caro. A universidade dos seus filhos, as férias na Europa, as festas, os carros, as modelos...
– Caralho! Cê é foda Palhares. Cadê a porra dos documentos? Vô assinar essa merda agora. E foda-se a patroa! Vô fumar um maço de cigarro na sala hoje!!! E ainda vô chamar duas putas! Hahahahaha Duas não, três putas. Vô fazer uma orgia em casa! Hahahahaha Tá afim? Mas chame as suas putas, porque as minhas três eu não empresto, não vendo e não troco.
– Não, não, obrigado. Eu estou de viagem marcada. Vou para Brasilia. Estou fazendo contatos extraordinários. Se der certo, vai entrar é muito dinheiro. Mas fique tranquilo que sua parte está garantida. Cê me conhece, não sou de quebrar minha palavra.
– Eu sei porra! Eu sei! Concê, é no fio do bigode. Boa sorte em Brasília! Dê noticia.
– Pode deixar. Amanhã pela manhã trago o resto do dinheiro. Até mais.
– Te levo até a porta.
– Não precisa. Tchau.




Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Coração de mãe

Começou assim. Primeiro foi um. Médico respeitado. Se conheceram em uma festa. Trocaram telefones. Sairam algumas vezes. Acabaram ficando. Ela tinha 32. Ele, 54. Era um amor confortável. Feito de restaurantes finos e hotéis de luxo. Se o sexo não era lá essas coisas, as gentilezas compensavam. Ele a respeitava. Não perguntava o que ela fazia, que horas voltava. Se encontravam duas vezes por semana. Religiosamente. Nos outros dias, nem se falavam. Parecia perfeito.

Parecia. Mas faltava algo. Aí aconteceu. Não se sabe se foi o excesso de espaço. Ou a diferença de idade. Mas numa quarta-feira, meio chuvosa, ela conheceu o outro. Era advogado. Bem apessoado. 34 anos. O interesse foi mútuo. E instantâneo. Ficaram e dormiram juntos logo na primeira noite. E começaram a namorar. Tinham muito a ver um com o outro. Gostavam das mesmas coisas, faziam os mesmos programas. Um casal quase perfeito.

Quase. Porque ela, claro, não abandonou o Médico. Pelo contrário, estava cada vez mais firme. Só que agora, tomava mais cuidados. Sua agenda era cuidadosamente planejada. Ela dava exatamente a mesma atenção aos dois. E, por via das dúvidas, evitava que ambos frequentassem sua casa. Como morava com duas amigas, era fácil manipular. Dizia que elas falavam demais. Que não queria ter sua vida vasculhada. E desse modo, levava a situação. Estava feliz como poucas vezes na vida. Cada um completava um lado. O Médico era cortês, educado, charmoso. Quase um Richard Gere. Já o Advogado compreendia sua alma. Entendia seus sentimentos. Com ele, se sentia totalmente à vontade. E o sexo era mágico. Espiritual. Não faltava mais nada.

Quer dizer, era isso que ela pensava. Até uma noite, em que perdeu a chave e foi dormir na casa de uma amiga. E conheceu o irmão dela. Estudante de arquitetura. 24 anos. Um xuxu. Tentou evitar. Mas os olhares acabaram se cruzando. Ela sentiu um arrepio. Quando percebeu, já estavam sozinhos. A amiga dormia há tempos. Ela não aguentou. Se agarraram ali mesmo. E marcaram a transa para o noite seguinte. Na casa dela.

Como os outros dois não iam lá, a barra estava limpa. E a performance superou as expectativas. Ele era a virilidade em pessoa. Energia pura. Testosterona acumulada. Para evitar problemas, contou sobre os outros dois. E combinou que ele iria preencher os espaços vazios. Literalmente. Sempre que houvesse uma oportunidade, ela ligaria. E ele apareceria.

Agora sim. Ela estava realizada. Tudo bem que às vezes passava sufoco. Como no dia que o Advogado fez uma visita surpresa. O Arquiteto ficou quase uma hora embaixo da cama. Ou quando parou o carro do lado do Médico. Com o Advogado no banco do passageiro. Mas não importava. Gostava dos três.

Nessa toada se passaram 6 meses. Tudo às mil maravilhas. Parecia que ia durar para sempre. Foi quando ela começou a misturar as coisas. O Médico queria construir uma casa. Sem perceber, ela indicou o escritório onde o Arquiteto trabalhava. Por distração também, no dia que o Advogado se machucou jogando bola, ela comentou do Médico, especialista em joelhos. Para finalizar, o Arquiteto tinha uma ação na justiça. Mais uma vez, ela vacilou e acabou passando o telefone do Advogado.

Quando caiu em si, o pior havia acontecido. Eles ficaram amigos. Nem desconfiavam da situação. Mas de alguma forma estavam conectados. Tinham algo em comum. Os três só falavam nos novos companheiros. Pareciam crianças. Ela redobrou os cuidados. Vivia tensa. Mas só perdeu o controle mesmo naquela quinta-feira.

Acordou carente. Tinha três namorados. Mas ainda assim se sentia esquecida, abandonada. Passou o dia pensando com qual gostaria de encontrar. Não conseguia decidir. Queria os três. Resolveu ir por ordem de chegada. Ligou para o Médico. Não podia. Tentou o Advogado. Também ocupado. O Arquiteto? Resposta negativa. Então a ficha caiu. Eles a trocaram por eles mesmos. O sangue ferveu. Nem pensou nas consequências. Saiu do jeito que estava. Encontrou-os em um bar. Foi um escândalo. Não deixou que eles disessem sequer uma palavra. Aos gritos, terminou com os três ao mesmo tempo.


Baseado em uma história real