Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

3 X josé


Conheceu Solange em um baile. Desses de interior. Com barraquinhas e correio elegante. Foi amor à primeira vista. Sem explição. Ela nem era tão bonita. Mas não importava. O que valia era o sentimento.

Começaram a namorar naquela mesma noite. Em quatro meses, ficaram noivos. Antes de completar um ano juntos, se casaram. Alguns duvidavam que daria certo. Mas José transbordava confiança. Dizia para quem quisesse ouvir: “é a mulher da minha vida, nem sei falar”.

Foram felizes por quase uma década. Tiveram 2 filhos. Quando ela ficou doente, José parou até de trabalhar. Permaneceu ao lado da esposa até o suspiro final. No enterro, estava inconsolável. E assim permaneceu por meses a fio.

Preocupada com os sobrinhos, Simone, a irmã gêmea de Solange, começou a visitar a casa com frequência. Mantinha longas conversas com José e o ajudava a cuidar dos filhos. Aos poucos, foram se acostumando um com o outro. Quando perceberam, estavam namorando.

Por respeito à falecida, o casamento foi discreto. Nada de igreja, nem festa. Só uma reunião para os mais íntimos. José era só alegria. Se achava o mais sortudo dos homens. “Perdi um amor, mas encontrei outro ainda melhor”, dizia.

E a vida dos dois foi boa mesmo. Era um amor tranquilo, sem brigas ou discussões. Nos cinco anos que viveram juntos, tiveram uma filha, dois cachorros e uma criação de canários. Quando tudo parecia perfeito, veio a tragédia. Um acidente de carro. Ele não teve chance sequer de se despedir. Simone morreu na hora.

José ficou arrasado, desesperado. Era azar demais. Só não suicidou-se por causa dos filhos. Não queria ver ninguém. Ficou mais de mês sem sair de casa. Quem o via, dizia que ele jamais se recuperaria.

Mas a vida continuou. E José, aos poucos, foi recuperando a alegria. No natal, criou coragem e foi até a casa da ex-sogra. E lá reencontrou Sabrina, a irmã mais nova de Simone e Solange. Filha temporã, era apenas uma menina quando do primeiro casamento. Mas agora, já na casa dos 20, era uma mulher e tanto.

José se sentiu até mal. Não podia, não devia, mas passou a noite olhando para a ex-ex-cunhada. Depois, se ardendo de culpa, prometeu esquecer essa idéia. Só não esperava que Sabrina se interessasse. E passasse a visitá-lo. Ele tentou resistir. Pensou até em mudar de cidade. Mas não teve jeito.

O namoro foi mais tranquilo do que ele imaginava. Ninguém o criticou. Nem mesmo a sogra. Parecia óbvio, coisa do destino. De todo jeito, ele decidiu não fazer festa alguma. Casamento só no civil; com poucas testemunhas. E mesmo assim, com uma condição. Não que acreditasse nessas coisas. Mas exigiu que a noiva fizesse um seguro de vida.









Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Nunca é tarde

Era impecável no trajar. Sempre distinto, impoluto. Usava gravata até para ir à padaria. Quando estava em companhia da esposa, D. Lucy, ficava ainda mais elegante. Pareciam saidos de um filme antigo. Dava gosto de ver.

Seu Agenor já estava na casa dos 70. Era magro, taciturno, silencioso. Ninguém sabia ao certo qual era a sua profissão. Alguns diziam que havia sido um grande advogado. Outros, que era empresário, tinha fazendas.

Quando sua mulher morreu, o prédio todo ficou comovido. Acharam que ele não fosse suportar. Mas não perdeu a elegância nem durante o velório. Ficou o tempo todo ao lado do corpo. De quando em vez, enxugava contidas lágrimas. Uma dignidade de fazer inveja.

Nas semanas seguintes, seu Agenor parecia tranquilo. Até demais. Doou as roupas da falecida; manteve seus pequenos rituais. Todos os dias, pontualmente às 17h, ia à padaria. E foi justamente ali que começou a transformação.

Era uma terça-feira. Como sempre, seu Agenor estava elegantissímo. Usava um terno cinza, risca de giz. Nada demais para ele, não fosse pelas sandálias femininas que calçava. Como não poderia deixar de ser, as sandálias eram de extremo bom gosto - e com um salto 15.

A notícia se espalhou rapidamente. Não se falava em outra coisa no prédio. Todos os moradores queriam saber da história. “Ele está gagá”, diziam uns, “é o espírito da falecida”, afirmavam outros. A portaria passou a ser uma espécie de central de informações, com direito a atualização on line via interfone.

E seu Agenor não deixou ninguém esperando. Diariamente aparecia com uma nova peça de roupa. Primeiro foram as sandálias. Depois as meias finas. Em seguida começou a usar saias. Em poucas semanas, a transformação estava completa, incluindo peruca, maquiagem e acessórios.

Em um sábado à tarde, ele finalmente falou. Não deu explicações ou justificativas. Simplesmente pediu para, daquele momento em diante, ser chamado de D. Sofia.




Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Vida Na Pequena Área


Pretérito (in) Perfeito. Se acharam. Se apaixonaram. Namoraram. Treparam. Dormiram. Viajaram. Brigaram. Choraram. Se cansaram. Se perderam.

Se amavam ou não se amavam? Se questionaram. Discutiram. Se acusaram. Se ofenderam. Se arrenpenderam. Descobriram. Não se importavam.

Pretérito. Perfeito. Para amores imperfeitos. Que passaram e não foram. Deixaram-se levar. Por tudo aquilo que não teria. Futuro.



No twitter:http://twitter.com/vidapequenaarea

Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Agora no Twitter!!! Vida Na Pequena Área.

Era uma menina triste. Sem razão de ser. Sofria por costume de sofrer. Até ganhar na loteria. Ficou tão feliz, mas tão feliz, que morreu de alegria.





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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Confissões

“Lucineide, eu tenho uma amante”. Foi assim que ele disse. A seco. Sem mais delongas. O almoço servido, esfriando na mesa. E o silêncio; digno de um maracanazo. Depois continuou: “estamos juntos há seis meses. Ela é 20 anos mais nova que você”.

Ela permanecia imóvel. Nenhuma reação, nenhuma expressão. Sequer um gemido. Nada. Ernesto não sabia o que fazer. Estava preparado para qualquer reação, mas não para essa indiferença. Esperava gritos, lágrimas, blasfêmias. Havia até mudado um vaso de lugar, para o caso da mulher partir para a agressão.

Ele pigarreou, tentou assoviar alguma coisa. O tempo não passava. Começou a suar frio. Pensou em levantar e ir embora. Não teve coragem. Aos poucos, foi perdendo o controle. As idéias embaralhavam. Nada fazia sentido. Aí ele se entregou.

Entre lágrimas, começou a falar: “me desculpe, Lucineide. Eu não presto. Me perdoe, por favor. Ela não representa nada. É uma vadia, uma qualquer. Eu errei, admito. Mas posso mudar. Eu vou mudar. É você que eu quero. Eu te amo Lucineide, eu te amo!”

Nesse momento ela sorriu. Os anos de sofrimento haviam acabado. O silêncio não era de tristeza, mas de alívio. Lucineide se sentiu redmida, completa. A felicidade era tanta, que ela resolveu falar. E como falou. Contou de todos os seus amantes. Do porteiro, do professor de francês, do personal training, do melhor amigo dele. Falou das tardes de terça, das manhãs de quinta e até da rapidinha com o camareiro, durante a lua de mel. Disse que o amava, que o perdoava e que compreendia tudo.

Lucineide só não entendeu a reação dele. O porquê dos gritos, dos palavrões. Daquele vaso jogado nela. Quando o pedido de desquite chegou pelo correio, ela viu que a coisa era séria. E pensou alto: “como os homens são estranhos...”


Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

O Candidato

Ernestinho nasceu para a política. Coisa de família. Seu bisavô foi vice-governador. Seu avô, o deputado mais votado do estado. E até seu pai, que morreu cedo, foi prefeito por dois mandatos. Não havia escolha. Era só uma questão de tempo.

E seu tempo chegara. Ia completar 30 anos. No partido, seu nome foi escolhido por unanimidade. Eram favas contadas. Até o adversário sabia que não tinha a menor chance. A família de Ernestinho era adorada na região. E desde a eleição passada, o povo já cobrava sua candidatura.

Somente uma coisa era mais comentada na cidade do que a eleição: o glorioso Alferense Futebol Clube. Há anos o time só dava vexame. Não conseguia ganhar de ninguém. Até que um fazendeiro da região resolveu bancar o clube. Contratou jogadores, comprou camisas e até reformou o velho estádio municipal. O time começou vacilante, mas embalou. E depois de alguns jogos, era o líder do campeonato.

E justamente essa era a maior preocupação de Ernestinho. Por uma daquelas inexplicáveis travessuras do destino, ele torcia para o S. E. Guaraci, o maior rival do A.F.C.. Esse deslize de caráter era segredo de estado. Somente sua família e dois ou três amigos sabiam. Se a informação vazasse, a eleição estava perdida.

Tudo corria às mil maravilhas. Tanto para Ernestinho, quanto para o Alferense. O candidato liderava as pesquisas, com mais de o dobro dos votos do segundo colocado. E o time não fazia por menos, estava invicto há 12 partidas. O povo andava feliz como nunca. Para completar, a final do campeonato foi marcada para um dia antes da eleição.

Não é preciso dizer que Ernestinho entrou em pânico. O adversário era justamente o seu amado Guaraci. Ele tentou como pôde não ir ao jogo. Mas não teve jeito. Seu lugar na tribuna de honra já estava reservado. No dia, pensou em fugir, mas acabou convencido que bastava ficar quieto, o Alferense ia golear e tudo acabaria bem.

Mas faltou combinar com o goleiro adversário. Ele defendia tudo. Chutes, voleios, cabeçadas e até um pênalti, inventado pelo juiz. Parecia brincadeira, por mais que o time atacasse, o guarda-metas do Guaraci não deixava passar nada. E o 0 x0 se arrastou pelos 90 minutos. E depois pela prorrogação. A disputa de pênaltis também ficou empatada até a última cobrança. Estava tudo nos pés do melhor jogador do Alferense. Ele ajeitou a bola com carinho, tomou distância e bateu.

Uma tristeza profunda tomou conta do estádio. O silêncio que veio a seguir deveria ser absoluto. Não fossem os gritos que vinham da tribuna. Ernestinho havia resistido bravamente, mas o derradeiro pênalti havia sido demais. Com os olhos cheios de lágrimas, ele urrava, pulava, comemorava feito uma criança.

Quando percebeu a gafe, Ernestinho começou um discurso inflamado, com juras de amor à cidade. Um simples jogo de futebol jamais poderia atrapalhar a caravana do progresso. O povo deveria julgar com a razão e não com a emoção. Foi interrompido por uma pedrada. Acabou saindo escoltado do estádio. Para evitar uma tragédia, foi embora da cidade de madrugada. Da eleição, só soube pela imprensa. As imagens do seu adversário carregado pelo povo e vestido com a camisa do Alferense passaram no país inteiro.

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Nomenclaturas

Se conheceram numa sexta-feira. Uma amiga arranjou tudo. Sem ela saber, claro. Quando viu já estava sozinha com ele. No dia seguinte, a amiga ligou cedo para saber das novidades. “Ah, ele é bonzinho”, foi tudo que ela disse.

Mais pela insistência dele do que pela vontade dela, sairam outras vezes. Um cineminha aqui, um jantarzinho acolá. Ele sempre cortês; ela distante e reservada. Quando perguntavam, respondia sem empolgação: “ele é muito gente boa”.

Quando o aniversário dela chegou, foi comemorar com ele. Uma noite romântica, com direito a luz de velas, caixa de bombons e outros mimos. Na hora que as amigas ligaram, ela derretia: “Ele é um fofo, não é?”.

Logo depois, começaram a namorar. Se viam quase todos os dias. Pareciam feitos um para o outro. Ela emagreceu, cortou os cabelos, voltou para a ginástica. Pensava nele o dia inteiro. Colocou até uma foto em sua mesa. Se alguém passava por perto, sempre comentava: “Ele é um gato, pode falar!”.

Como em qualquer relação, eles também tinham seus problemas. A tampa do vaso eternamente levantada, o ronco à noite, o futebol no domingo... No encontro semanal das mulheres ela já não escondia: “Ah menina, ele é muito displicente”.

Foi numa terça-feira chuvosa. O namoro não andava lá essas coisas, mas ela não esperava por isso. Ele foi direto ao ponto. Sem rodeios ou justificativas. Era o fim. Ela chorou como poucas vezes na vida. Muito mais por orgulho do que por amor. Ficou semanas sem sair de casa. E ainda hoje, quando perguntam dele, ela fecha cara e vocifera: “Quem? Aquele canalha, desprezível e infame?”