CorruptelaSexta. 1o de março.11 da manhã. Quase na hora de abrir o restaurante, o telefone toca.
- Alô!
- Zé??
– Sim, quem tá falano?
– É o Palhares, Zé. Tá esquecendo dos amigos???
– Faaala Palhares! Quanto tempo! Tudo bem concê?
– É... tudo indo, tudo indo.
– Cara sumido, sô. Depois que ficou importante, nem lembra da turma.
– Que absurdo! Almocei aí mês passado.
– Mas é diferente. Cê tava acompanhado. Nem deu pra conversar.
– Foi para isso que eu liguei.
– Prá isso, o que?
– Para conversar. Estou precisando muito falar com alguém de fora. Posso passar aí hoje? Eu vou sozinho...
– Uai, claro. Mas de fora de onde?
– Não posso falar aqui, Zé. Estou indo para aí.
– Já entendi. Pode vim. Pode contar comigo pro que der e vier.
– Tchau, Zé. Até daqui a pouco.
– Tchau, Palha.
12h35. Restaurante Le Plat D'or, José Francisco fuma um cigarro enquanto lê o jornal. Caderno de política. Quer se inteirar das novidades. O garçon avisa que o Dr. Palhares chegou.
– Palhares! Vem cá meu amigo, me dá um abraço.
– Tudo bem, Zé?
– Tudo, e concê? Me conta! O que está acontecendo? Sentaí.
– Obrigado.
– O que houve? Se meteu em alguma treta?
– Não! Muito pelo contrário! Esse é que é o problema. Não corremos o risco de alguém nos ouvir aqui, não é?
– Claro que não. Essa é a sala de fumantes. Tá sempre vazia. Essas leis que proibem fumar são uma merda. Mas comigo não tem disso. Mantenho a sala. Não quero nem saber. Eu fumo, porra! Qual o problema? O que que o Governo tem a ver com isso? Antigamente todo mundo fumava. Hoje em dia, tá brabo. Procê ter uma idéia, lá em casa, a patrôa me proibiu de fumar no quarto. Depois não podia fumar na sala, depois no banheiro. Agora, só posso fumar na varanda. E olhe lá. Qualquer dia vou ter de sair de casa para fumar um cigarro. Puta quiu pariu, porra! Mas aqui não. Aqui eu fumo, não quero nem saber. Pra isso mantenho essa sala, pra garantir o direito ao sol dos fumantes! Mas fala Vieira. Eu tô aqui prá te escutar. O que houve?
– O negócio é o seguinte, Zé: você não pode falar para ninguém. Promete?
– Que isso Palhares. Tá desconfiando de mim? Que isso, cara!
– Promete?
– Prometo, porra! Claro! Cê sempre foi cheio de frescura, né Palhares? Puta quiu pariu!
– Não é frescura. O assunto é sério.
– Tá, tudo bem, foi mal. Pode falar. Não ia contar pra ninguém mesmo. Sou um túmulo.
– O negócio é o seguinte: você sabe que eu sou Secretário de Planejamento do Estado, não é? Toda a verba do Estado passa na minha mão.
– É mesmo? Não sabia. Não vejo TV, nunca sei quem é quem na política. Então você é importante pra caralho! Quem diria... Torço muito por você, cara. É bom ver um amigo da gente assim, importante. Depois quero até ver umas coisas aí, de impostos. É muito dinheiro que eu pago. Deve ter um jeito aí. Mas depois a gente conversa. Continua...
– Pois é, fui nomeado e garanti ao Governador cumprir com ética e decência o exercício do meu cargo.
– hum... E aí? Ele acreditou? Hahahahahaha!
– E aí, que eu descobri corrupção no governo dele.
– Uai, mas não é sempre assim?
– Que isso, Zé! Está louco? Tem muita gente séria trabalhando para o Governo. Eu inclusive.
– Sei...
– Então, outro dia, por acaso fui conferir umas notas de um projeto. E descobri um superfaturamento. O Governo está pagando quase mil por cento a mais que o mercado. Um roubo.
– E é muito dinheiro?
– A diferença chega quase a 2 milhões. E isso não é nada. Pedi para ver outras liberações de verba, licitações, compras. A coisa é generalizada.
– Cê acha que tem gente lá de dentro ganhando muito com isso?
– Calma. Tem mais ainda, eu vou chegar lá. Fui tentar descobrir quem estava liberando a falcatrua.
– E aí?
– Tinha gente do terceiro e do segundo escalões. Chamei meu sub-secretário, que também está no rolo. Conversa vai, conversa vem, eu comecei a apertar ele. Você não acredita, até os meus colegas Secretários de Estado estão envolvidos.
– É uma corja, uma gangue, uma máfia.
– É... você não imagina como eu fiquei. Minha primeira reação foi tentar falar com o Governador. Não consegui. Pensei em chamar a polícia, mas fiquei com medo. Já estava decidido a procurar Ministério Público, quando minha secretária avisou que eu tinha hora marcada com um tal de Dr. Paulo, de não sei aonde. Achei engraçado. Não me lembrava dessa reunião. Mas mandei o tal “Doutor” entrar.
– Ele te ameaçou de morte!? Puta quiu pariu Palhares! Ocê é maluco!? Tá cutucando cobra com a vara curta, cara! Esse pessoal é ganguister, eles matam mesmo.
– Eu tive esse medo no começo, mas foi muito pior. Ele me ofereceu dinheiro. Ele tentou me comprar!
– Menos mal. Antes rico desonesto que pobre morto.
– Menos mal? Você está louco Zé? Você me conhece há muitos anos. Sabe como eu sou. Não seria capaz. Eu tenho nojo de gente assim.
– O que você fez então?
– Nada. Pedi tempo para pensar.
– Quanto ele te ofereceu?
– Cinco milhões. E disse que eu ganharia muito mais, se ajudasse.
– Caralho Palhares! Cê tá rico! Hahahahaha. Onde nós vamos comemorar?
– Zé, eu não aceitei.
– Mas também não disse que não.
– Não. Quer dizer, sim. Eu não falei nada, falei só que ia pensar.
– E o que ocê pensou?
– Não pensei ainda, né Zé. Vim aqui justamente para ouvir sua opinião. Você é meu amigo há tantos anos. Uma das poucas pessoas em quem eu confio. Além do mais, a Elisângela não anda bem de saúde. Os remédios são caros e nosso orçamento é curto...
– O que que a Elisângela tem, Palhares? É grave?
– Essas coisas de mulher. Hormônios, úteros, tireóides. Essas coisas...
– Sei... E ocê agora quer minha opinião, certo? Olha Palhares, vou ser bem franco concê. Te conheço há muitos anos. Não vou ter babas na língua.
– Foi por isso que te procurei.
– Quando a gente era mais novo, eu te achava até meio bobo. Sabe como é, né? Cê não bebia, não fumava cigarro, não fumava maconha, quase não saía de casa. Eu é segurava sua barra com o resto da turma. Todo mundo falava mal docê. Que era maricas, fresco, criado com vó, essas coisas. E eu lá, te defendendo. Falando: “não gente, ele é meio bobo, mas é legal”. Já quase briguei pra te defender uma vez. O Arnaldo, cê lembra dele, né? Pois bem, ele começou a falar que ocê era isso, que era aquilo, que ia te bater. Acho que ocê negou cola de uma prova prá ele.
– Pô Zé! Isso foi no primeiro ano científico. Fazem mais de 30 anos.
– Tá bom, esquece. Mas nesse dia eu te defendi muito. Falei que era mentira, que se ele falasse de novo ia ver uma coisa.
– Você queria impressionar minha irmã, Zé. E além disso, o Arnaldo me bateu naquele dia.
– Porque eu não estava lá! Se estivesse cê ia ver.
– Zé, você estava lá.
– Mas tava longe! Mas se tivesse mais perto...
– Tudo bem, tudo bem, eu acredito. Mas você ainda não falou nada sobre o meu caso.
– Ah sim. Claro. Então, como eu tava falando, eu te achava meio bobo antigamente. Mas depois foi melhorando. Você tinha mania de fazer tudo certinho. Nunca te vi nem avançar sinal vermelho! Quando soube que tinha entrado prá política pensei: “esse aí vai longe, qualquer dia vira presidente”. Mas agora, não sei não...
- Não sei não o que, Zé?
– Porra Palhares, deixa de frescura. Cê tá com a chance de ficar milionário e ainda pensa duas vezes!? Rateia!? Tá maluco!? Quem dera fosse eu... Puta quiu pariu, 5 milhões. E você ainda fica pensando, cara? Cê já viu que todo mundo mama, não viu? Te garanto que o Governador é quem mais rouba. Se não tivessem te oferecido, aí tudo bem, cê tinha mais é que denunciar os filhos da puta, mesmo. Mas agora, cê pode matar dois carneiros com uma caixa d’água só. Você não denuncia, não corre o risco de morrer á toa, e, ao mesmo tempo, fica milionário e ainda paga os remédios da Elisângela. Perfeito. Acabou a discussão.
– As coisas não são simples assim. E se descubrirem? Eu posso ir para a cadeia, Zé! Já pensou, eu na cadeia? Aparecendo no Jornal Nacional?
– Agora entendi tudo. Cê tá louco prá aceitar a bufunfa, mas tá sem coragem... Cê é um bundão mesmo. Vê se pode. Quantos políticos que você conhece estão presos? Heim? Me fala? Cê tem imunidade parlamentar, cara!
– Zé, eu não sou Deputado. Sou Secretário de Planejamento do Estado. Só deputados têm imunidade parlamentar.
– É verdade. Mas ainda assim, não lembro de nenhum político preso por corrupção no Brasil.
– Eu sei. Mas sei lá, sabe... Vai que abrem uma exceção logo na minha vez...
– Deixa de ser bundão, caralho! Cê pode tirar o cavalinho da chuva, por as manguinhas de fora. Farinha pouca, meu pirão primeiro, sacou?
– É... farinha pouca, pouca meu pirão primeiro. Isso faz sentido.
– Além do mais, o que esse governo já fez procê? Porra nenhuma. Cê só paga imposto, paga taxa, paga multa e não ganha nada com isso. Abre o olho, Palhares!
– Mas você paga imposto e não tem nada em troca, justamente por causa da corrupção. Eu vou contribuir para piorar o país! E agora?
– Mas cê é burro ou o que? Se você não roubar, outro vem e rouba. Ou cê acha que mais alguém no governo é bundão feito você? Heim? Mané. Otário. Tá comendo mosca, cara. Outra chance feito essa nunca mais. A sorte não bate duas vezes na mesma árvore. Cê tem de pegar agora e garantir seu futuro. E os seus filhos, cara? Que futuro você quer prá eles? Se pegar a grana, pode mandar todo mundo estudar em Miami, na Suiça, na casa so caralho.
– Eu não tenho filhos, Zé.
– Melhor ainda, porra. Pode gastar tudo em viagens, festas, mulheres... Heim, já imaginou comer aquelas modelos famosas... Eu é que tô fudido, tenho 3 filhos e prá sustentar eles, trabalho dia e noite nesse restaurante. É até pecado recusar. Tanta gente passando fome no mundo e você recusando dinheiro. Deus não dá asa a a onça, mesmo... Aiaiai, se fosse comigo...
– Tô começando a te dar razão, Zé...
– Ouça oque eu te digo: farinha pouca, meu pirão primeiro.
– Obrigado, Zé. Você me ajudou demais.
– Não tem de quê. Mas depois cê olha o negócio dos impostos prá mim. A situação tá braba mesmo. Tenho 3 filhos pra criar. É só umas dívidas de nada. Perto do seus cinco milhões, é até piada.
– Pode deixar, mande os documentos prá minha secretária que eu vou dar um jeito.
– Valeu demais Palhares, meu amigão! Me mantenha informado. Melhoras prá Elisângela! Tchau.
– Obrigado.Tchau.
Quarta-feira, 12 de abril.18h30. Avenida Amazonas; trânsito intenso. Enquanto procura uma rádio, José Francisco pensa na filha da vizinha: “Ela está com 20 aninhos, que delícia. Queria ter 15 anos a menos; ou então 5 milhões a mais, hahahahaha.” Seu pensamento é interrompido pelo toque do celular.
– Pronto!
– Zé? É o Palhares, tudo Bem?
– Fala Palhaaaares! Porra, pensei nocê agorinha mesmo. Foi transmimento de pensação! Hahahahaha.
– Que?
- Transmimento de pensação, transmissão de pensamento... Sacou? Hahahaha
– Bom te ver assim de bom humor! Então, estava precisando conversar de novo com você.
- O que, outro suborno? Hahahaha Por falar nisso, obrigado pelo lance das dívidas, lá. Valeu mesmo. E como terminou aquele negócio? Cê pegou a parada? Os..
– Não! Quer dizer, não posso falar por telefone. Onde ocê está? Podemos nos encontrar agora?
– Porra Palhares, tô no meio de um trânsito escroto. Vô demorar pelo menos uma meia hora prá chegar em algum lugar. Mas cê sabe, né? Pros amigos tudo, pros inimigos a lei. Hahahahaha Cê pensou em algum lugar?
– Tem de ser um lugar muito discreto.
– Já sei, porra! Lem casa. A patroa foi pro sítio com os meninos. Sabe onde é?
– Acho que me lembro, sim.
– Rua Oriente, 512, apartamento 303. Te espero lá em meia hora. Se der, compre umas cervejas, não sei quantas têm lá.
– Pode deixar. Até daqui a pouco.
– Inté.
19h10. O interfone toca. José Francisco manda subir sem perguntar quem é e já abre a porta da frente. Orlando Palhares entra poucos minutos depois, com uma caixa de cerveja em baixo do braço.
– Pode por as cervas no congelador. Tem umas geladas na porta da geladeira. Fica à vontade, que a casa é sua, Palhares.
– Obrigado, Zé.
– Então, qual o motivo para uma visita tão ilustre?
– Vim te agradecer. Se não fosse por você...
– Agradecer pelos conselhos? Que isso Palhares, agente é igual irmão. Uma irmão lava a outra. Hahahahahaha. Eu te ajudei com o conselho e ocê me ajudou com os impostos. Inclusive, muito obrigado.
– É, mas se não fosse por você, eu não teria feito o negócio. Seria um bundão até hoje.
– Então rolou a propina... E aí, tudo certo?
– Perfeito. Depois descobri que não tem como dar errado. Tem policial civil, delegado federal, juiz, deputado, senador, prefeito, tudo comprado. Cê tinha razão, eu era o único bundão do Governo.
– Não te falei? Mas não deu bandeira, né? Se a imprensa fica sabendo, aí fudeu.
– Não, de jeito nenhum. Coisa de profissional. Mas vamos logo ao que interessa. Eu vim te dar um presente.
– Não precisa Palhares. Fiz tudo por amizade.
– Você não está entendendo. É assim que funciona. Você sabe demais, então precisa entrar no negócio também. É mais do que uma questão de justiça, é uma obrigação.
– Cê num tem jeito, né Palhares? Sempre certinho, cumprindo regras. Nem na hora de roubar cê num perde essa frescura. Puta quiu pariu! Hahahahaha
– O dinheiro está nesse pacote aqui, quinhentos mil reais. Dez por cento da bolada. E a partir de agora vai ser assim. De tudo que eu conseguir, dez por cento é seu.
– Porra Palhares, cê é meu amigo prá caralho. Cê é um anjo. Nem sei o que eu posso te dar em troca.
– Eu sei. Preciso que você assine uns papéis para mim.
– Que isso Palhares! Que papéis? Tô fora. Não, que isso.
– Eu já te falei como o negócio funciona. Você já está dentro. Está achando pouco? Te dou vinte por cento de tudo então.
– Vinte por cento? Quer dizer, um milhão hoje?
– Amanhã, Zé. Preciso pegar o resto ainda. Mas você tem de assinar aqueles papéis.
– O que são esses papéis?
– São para abrir uma empresa e uma conta no seu nome. E uma procuração me dando plenos poderes para controlar ambas.
– Mas não é sujeira, não?
– Claro que não! Você mesmo não falou que nunca viu político preso? Se te pegarem, você diz que foi enganado, que não sabia de nada, essas coisas. Dinheiro para pagar advogados não vai faltar. Não tem como dar errado. E eu não já falei que está todo mundo envolvido. Para pegar um, tem de pegar todos. Nenhum pássaro na mão e todos voando. Hahahaha.
– Porra, não tô gostano dessa história. Vô virar laranja, caralho! Sempre me perguntei quem eram os idiotas abriam contas pra nêgo roubar. Agora tô eu aqui, assinando uns papéis. Puta quiu pariu.
– Eu também achava errado roubar. E você me convenceu a mudar. Farinha pouca, meu pirão primeiro, lembra? Vai fugir da raia? E o milhão que você vai ganhar agora? E dinheiro que ainda pode entrar? É a sua independência financeira, meu caro. A universidade dos seus filhos, as férias na Europa, as festas, os carros, as modelos...
– Caralho! Cê é foda Palhares. Cadê a porra dos documentos? Vô assinar essa merda agora. E foda-se a patroa! Vô fumar um maço de cigarro na sala hoje!!! E ainda vô chamar duas putas! Hahahahaha Duas não, três putas. Vô fazer uma orgia em casa! Hahahahaha Tá afim? Mas chame as suas putas, porque as minhas três eu não empresto, não vendo e não troco.
– Não, não, obrigado. Eu estou de viagem marcada. Vou para Brasilia. Estou fazendo contatos extraordinários. Se der certo, vai entrar é muito dinheiro. Mas fique tranquilo que sua parte está garantida. Cê me conhece, não sou de quebrar minha palavra.
– Eu sei porra! Eu sei! Concê, é no fio do bigode. Boa sorte em Brasília! Dê noticia.
– Pode deixar. Amanhã pela manhã trago o resto do dinheiro. Até mais.
– Te levo até a porta.
– Não precisa. Tchau.