quinta-feira, 1 de março de 2012

Confissões

“Lucineide, eu tenho uma amante”. Foi assim que ele disse. A seco. Sem mais delongas. O almoço servido, esfriando na mesa. E o silêncio; digno de um maracanazo. Depois continuou: “estamos juntos há seis meses. Ela é 20 anos mais nova que você”.

Ela permanecia imóvel. Nenhuma reação, nenhuma expressão. Sequer um gemido. Nada. Ernesto não sabia o que fazer. Estava preparado para qualquer reação, mas não para essa indiferença. Esperava gritos, lágrimas, blasfêmias. Havia até mudado um vaso de lugar, para o caso da mulher partir para a agressão.

Ele pigarreou, tentou assoviar alguma coisa. O tempo não passava. Começou a suar frio. Pensou em levantar e ir embora. Não teve coragem. Aos poucos, foi perdendo o controle. As idéias embaralhavam. Nada fazia sentido. Aí ele se entregou.

Entre lágrimas, começou a falar: “me desculpe, Lucineide. Eu não presto. Me perdoe, por favor. Ela não representa nada. É uma vadia, uma qualquer. Eu errei, admito. Mas posso mudar. Eu vou mudar. É você que eu quero. Eu te amo Lucineide, eu te amo!”

Nesse momento ela sorriu. Os anos de sofrimento haviam acabado. O silêncio não era de tristeza, mas de alívio. Lucineide se sentiu redimida, completa. A felicidade era tanta, que ela resolveu falar. E como falou. Contou de todos os seus amantes. Do porteiro, do professor de francês, do personal training, do melhor amigo dele. Falou das tardes de terça, das manhãs de quinta e até da rapidinha com o camareiro, durante a lua de mel. Disse que o amava, que o perdoava e que compreendia tudo.

Lucineide só não entendeu a reação dele. O porquê dos gritos, dos palavrões. Daquele vaso jogado nela. Quando o pedido de desquite chegou pelo correio, ela viu que a coisa era séria. E pensou alto: “como os homens são estranhos...”

1 Comments:

Anonymous Flavia said...

Gendocéu, o samba e a canção dessa mulher apareceu pegando fogo!

4:27 PM  

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